|
Horas antes de anunciar a morte de Hugo Chávez, o governo da Venezuela recorreu a um dos truques favoritos do presidente para tentar unir seus partidários: falar de uma suposta conspiração dos EUA para desestabilizar o país. O vice-presidente Nicolas Maduro até sugeriu que Washington poderia estar por trás do câncer de Chávez.
"Por trás de tudo, estão os inimigos da pátria", disse Maduro, na televisão estatal, ladeado por todo o gabinete, governadores e comandantes militares do país. Maduro disse que o adido da Força Aérea da Embaixada dos EUA, coronel David Delmonaco, e um oficial militar norte-americano se aproximaram de membros do exército venezuelano e tentaram recrutá-los para "desestabilizar" a nação sul-americana. Maduro não deu detalhes sobre o suposto plano.
Maduro também sugeriu que "inimigos históricos" do país, uma frase muito usada na Venezuela para se referir aos EUA e seus aliados, podem ter causado o câncer de Chávez. Ele disse que o país provavelmente descobriria no futuro que Chávez "foi atacado com esta doença".
Há um ano e meio, inicindo tratamento em Cuba, Chávez havia insinuado que os Estados Unidos poderiam ter induzido a doença em líderes sul-americanos.
"É muito difícil explicar o que está acontecendo conosco na América Latina, mas não deixa de ser estranho, muito estranho", completou Chávez durante um discurso realizado diante das Forças Armadas.
"Talvez se descubra dentro de 50 anos" esse suposto plano americano para induzir ao câncer, disse o presidente, no poder desde 1999. "Não sei, só deixo para reflexão", acrescentou.
A gestão Obama, que espera estreitar as relações com a Venezuela após anos de antagonismo de Chávez, rejeitou as alegações. "Nós rejeitamos completamente a afirmação de que os EUA estão envolvidos em qualquer tipo de conspiração para desestabilizar o governo venezuelano. Nós rejeitamos as alegações específicas contra membros da nossa embaixada", disse o porta-voz do Departamento de Estado, Patrick Ventrell.
A retórica de Maduro é semelhante às teorias da conspiração que Chávez teceu durante seus 14 anos no poder. O líder populista venezuelano pode ter se inspirado em seu mentor político, Fidel Castro, que há muito tempo busca apoio do povo cubano ao retratar os EUA como um inimigo implacável. As informações são da Dow Jones.
Polônio-210 usado para matar o ex-espião da KGB Litvinenko pode ter sido usado para matar também o líder Palestino Yasser Arafat
Uma investigação da rede árabe de TV Al-Jazeera fez voltar à tona rumores de que Yasser Arafat, histórico líder palestino, não morreu de causas naturais, mas foi assassinado por contaminação radioativa, há dez anos.
Um exame em laboratório feito a pedido da emissora encontrou traços de Polônio-210, substância altamente radioativa, (um milionésimo de grama é suficiente para matar uma pessoa) em objetos pessoais de Arafat - roupas, escova de dentes e no seu keffieh, lenço tradicional que ele transformou no símbolo da causa palestina.
Segundo o Institut de Radiophysique, laboratório onde foram realizados os testes, na Suíça, Arafat tinha uma quantidade anormal de polônio dentro de seu corpo quando morreu, em um hospital militar na periferia de Paris. Pouco antes de morrer, ele passou semanas sob cerco de tanques israelenses em seu escritório, em Ramallah.
Testemunhas afirmam que Arafat estava bem de saúde, mas, subitamente, caiu doente. O chefe e fundador da Autoridade Palestina foi transferido às pressas para a França. Vários testes foram realizados pela equipe médica em Paris, mas nenhum indicou que Arafat tivesse sido envenenado. As causas da morte tampouco foram esclarecidas, entre as especulações estão as de que ele tinha câncer ou mesmo aids.
"Posso confirmar que detectamos uma quantidade inexplicavelmente alta de Polônio-210 nos objetos de Arafat, que contêm traços de fluídos biológicos", afirmou ontem François Bochud, diretor do laboratório suíço. Os objetos analisados por Bochud foram entregues à Al-Jazeera por Suha, viúva de Arafat.
Em 2010, um de seus seguranças, Imad Abu Zaki, que trabalhou para Arafat de 1988 até sua morte, afirmou em entrevista que Arafat morreu envenenado, mas não por uma substância colocada em sua comida.
Viúva de Arafat autoriza exumação do corpo após suspeita de envenenamento
A viúva de Yasser Arafat, Suha Arafat, autorizou a exumação do corpo do líder palestino, morto em 2004, após a divulgação de um estudo indicando resíduos da substância tóxica polônio em suas roupas.
Suha Arafat, que mora atualmente na ilha de Malta, no Mar Mediterrâneo, também pediu que seja feita uma autópsia para verificar se há indícios do material químico nos restos mortais de seu marido.
A decisão da viúva de Arafat ocorre um dia depois de a rede de TV Al Jazeera, sediada no Catar, ter publicado um estudo indicando que a substância radioativa e altamente tóxica foi encontrada em objetos que Arafat usava na época em que ficou doente, inclusive sua escova de dentes.
O estudo, realizado pelo Instituto Suíço de Radiofísica, indica "níveis anormais do elemento raro e radioativo denominado Polônio".
Segundo o cientista do instituto, François Bochud, o estudo revelou "uma quantidade não explicada e elevada de Polônio-210".
Saiba mais sobre o Polônio-210
Para esclarecer o que é, afinal, o polônio 210 e que riscos representa este raro "veneno" escolhido para matar o ex-agente da KGB em Londres, a Folha Online conversou por e-mail com o químico Heino Nitsche, da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos. Leia a seguir a íntegra da entrevista.
Folha Online- O polônio 210 pode ser encontrado na natureza? O que é essa substância exatamente?
Heino Nitsche- Esse elemento, de número 84 na tabela periódica, pode ser encontrado naturalmente no ambiente. Ele é fruto do decaimento (desintegração) do urânio 238, que existe em grandes quantidades na natureza, não apenas em depósitos naturais como ainda no solo e na água em alguns locais.
Ele é encontrado em pequenas quantidades na fumaça do cigarro, e é conhecido por causar câncer de pulmão. A planta do tabaco absorve o urânio natural do solo, que se mais tarde desintegra para polônio 210 e é então inalado pelo fumante.
O polônio 210 é radioativo. Geralmente, elementos podem ter vários isótopos (ou seja, que possuem o mesmo número de prótons mas número diferente de nêutrons em seu núcleo). Se a quantidade de prótons e nêutrons no núcleo do elemento é muito desigual, ele será instável e poderá decair para um elemento diferente. O polônio 210 se desintegra por decomposição "alfa", ou seja, seu núcleo emite íons do elemento hélio e gera a forma mais estável 206.
Folha Online- Quanto tempo dura uma amostra de polônio 210 no ambiente?
Nitsche- Essa substância tem uma meia-vida de 138,4 dias. Isso significa que, se alguém tem uma determinada quantidade de polônio 210, depois de 138 dias e meio, metade dessa quantidade terá se desintegrado para o 206.
Então, metade do que resta de polônio 210 se desintegra novamente depois de mais 138 dias, deixando apenas um quarto da quantidade X inicial, e assim por diante.
Após dez meias-vidas, um milésimo de X ainda resta. Isso significa que essencialmente o polônio 210 se desintegra em 1.384 dias.
Folha Online- Como se produz artificialmente o polônio 210?
Nitsche- Ele pode ser produzido em um cíclotron (acelerador de partículas), com o "bombardeio" do elemento bismuto 209 natural com nêutrons de alta energia. Nesta reação, o bismuto 210 radioativo é formado e, por ser radioativo, se desintegra e forma o polônio 210.
Folha Online- Que quantidade de polônio 210 pode matar uma pessoa?
Nitsche- A dose letal estimada para ingestão é de 40 nanogramas (40 bilionésimos de grama), e 10 nanogramas no caso de ele ser inalado. Por ser necessária uma dose tão pequena, ele pode ser facilmente colocado em alimentos ou bebidas. E o polônio 210 só faz mal se for ingerido ou inalado.
Folha Online- O polônio 210 é mais perigoso do que outras substâncias radioativas?
Nitsche- Essa é uma pergunta difícil. Depende da atividade específica de cada elemento, ou seja, de sua radioatividade por quantidade de massa. Bem, se considerarmos que uma dose letal é causada apenas pela radioatividade e não pela própria toxicidade do metal, então o polônio 210 é cerca de 75,5 mil vezes mais mortífero do que o plutônio 239, outra substância radioativa.
Folha Online- Quem tem a capacidade para produzir o polônio 210?
Nitsche- Esta é uma substância controlada pelo governo e pelas leis de cada país. Nos Estados Unidos, qualquer substância radioativa só pode ser comprada por empresas federais ou com licença do Estado. Nem todos os países tem a tecnologia para produzir o polônio 210 --na verdade, relativamente poucos países podem produzi-la.
A Rússia, no entanto, tem tudo o que é preciso para produzir este material.
Folha Online- Como é possível detectar o polônio 210?
Nitsche- Por ser radioativo, mesmo as menores quantidades de polônio 210 podem ser detectadas.
Há a possibilidade de que alguém não esteja treinado o suficiente para saber quando o que é detectado é o polônio 210 "natural", que vem da desintegração do urânio presente no ambiente.
O perigo desta substância provém da quantidade utilizada.
Folha Online- Como o polônio 210 pode ser transportado? Como ele poderia ter sido levado em aviões para o Reino Unido?
Heino Nitsche- O transporte de substâncias radioativas é estritamente controlado. Se o polônio, ou vestígios dele, foi encontrado em aviões, então alguém que o transportava deve ter sido externamente contaminado.
Substâncias radioativas são detectadas muito mais facilmente do que substâncias não-radioativas (de mil a 100 mil vezes mais facilmente, na verdade). Mesmo traços mínimos podem ser detectados se alguém contaminado externamente tocar qualquer objeto em uma sala.
Folha Online- Acredita-se que Alexander Litvinenko tenha sido envenenado no dia 1º de novembro, mas ele morreu no dia 23. Se o polônio é tão tóxico, ele poderia mesmo levar esse tempo para matar uma pessoa contaminada?
Nitsche- Experiências de estudos com cobaias animais mostraram que a ingestão de 8,7 nanogramas de polônio 210 por quilo de peso mata em cerca de 30 dias. Esse resultado parece ser compatível com a morte de Litvinenko, apesar de não existirem estudos específicos em humanos.
Heino Nitsche nasceu em 1949 e se formou em química na Freie Universitaet Berlin, na Alemanha, em 1976, onde também concluiu seu PhD em 1980. Entre 1998 e 2002, ele dirigiu o Centro Glenn T. Seaborg, no Laboratório Nacional Lawrence Berkeley (EUA). Hoje professor e pesquisador deste mesmo laboratório americano, ele também dirigiu o Instituto de Radioquímica de Forschungszentrum Rossendorf , na Alemanha.
Veja o estado em que ficou o espião russo, contaminado com Polônio-210
|