Conexão Repórter aponta 'formação de quadrilha de pedófilos'

Equipe voltou para acompanhar veredicto dos padres, que tinham esquema de 'rodízio' de coroinhas

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TRIBUNA HOJE 22/12/2011 às 8:58:14 (Atualizada: 22/12/2011 - 9:1:32)

À frente, padre Edilson Duarte; monsenhor Raimundo Gomes, logo atrás, o segue
À frente, padre Edilson Duarte; monsenhor Raimundo Gomes, logo atrás, o segue (Foto: Tribuna Hoje)

As hashtags “SBT” e “Conexão Repórter” estiveram por algumas horas sendo discutidas na rede social Twitter, na noite desta quarta-feira (21).

O porquê é o fato de os padres pedófilos de Arapiraca, segunda maior cidade de Alagoas, terem sido tema de mais uma abordagem jornalística.

O programa rememorou vários detalhes intrigantes desde que a denúncia foi feita, no mês de março do ano passado.

Um vídeo contendo cenas de sexo entre um coroinha e o monsenhor Luiz Marques Barbosa, à frente há mais de 20 anos da Igreja de São José, mostrou que por trás da batina havia, sim, o pecado.

Por ser uma autoridade religiosa, ele não poderia manter relações no âmbito sexual com quaisquer pessoas, afinal, fez sua escolha: seu casamento seria com Jesus e com a missão de evangelizar seus cordeiros.

No entanto, a verdade latente do vídeo tomou os camelôs da cidade e o povo o condenou antes da hora. “É preciso que ele pague aqui na Terra”, disse um morador da cidade.

Para isso foi montada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no município, encabeçada pelo senador Magno Malta (PR-ES). A CPI da Pedofilia colocou diante do Fórum lotado o que ninguém queria acreditar.

De um lado, os três ex-coroinhas: Fabiano da Silva Ferreira, Cícero Flávio Vieira Barbosa e Anderson Farias Silva, abusados ainda menores de idade. Do outro, contando com a mão do poder da igreja, os monsenhores Luiz Marques e Raimundo Gomes, e o padre Edilson Duarte.

Entre uma acusação e outra, a palavra “mentira!” era proferida como que em vão. Os fatos iam sendo revelados e os argumentos não mais convincentes davam vazão a somente à vergonha; à cabeça pendendo do pescoço e o olhar vazio para o chão.

“Ele disse que tinha medo de dormir no escuro sozinho. E me chamava. Foi ficando cada vez mais à vontade. Nu. Pedia para que eu fizesse massagem nas pernas dele [monsenhor Raimundo Gomes, à frente da Igreja Nossa Senhora do Carmo] e acontecia”, contou em depoimento Anderson Farias.

O religioso apenas disse na CPI da Pedofilia que era tudo mentira e que ele tinha misericórdia da suposta inverdade proferida pelo coroinha abusado.

Mas os indícios estavam lá. Motoristas, empregadas, testemunhas de convívio sabiam do esquema dos padres, que tinham até apelidos – monsenhor Luiz Marques era chamado de “Simone” e Raimundo Gomes, “Mônica”.

O código era usado pelos coroinhas e alguns outros padres para que ninguém (nesse caso, nenhum fiel) soubesse de quem se tratava – “Vou ali na casa da Simone!”.

A ‘formação de quadrilha de pedófilos’, como expressou o repórter Roberto Cabrini, foi desmembrada e em junho deste ano os três foram julgados. No entanto, o veredicto só saiu na última segunda-feira (19).

O alívio nos rostos das vítimas de pedofilia era evidente quando o juiz João Luiz Azevedo Lessa, da Vara da Infância e da Juventude de Arapiraca, apareceu com a sentença de prisão: pena de 21 anos para monsenhor Luiz Marques; para o monsenhor Raimundo Gomes, 16 anos e 4 meses; e ao padre Edilson Duarte, o mesmo deste último, mesmo tendo o recurso da delação premiada.

“Ele [monsenhor Luiz Marques] acabou comigo. Eu me sentia a pior pessoa do mundo fazendo aquilo. O cheiro dele ficava em mim. Começou aos poucos e depois ele queria fazer [sexo] todos os dias”, suspirou Flávio Vieira, às lágrimas.

Em sua oitiva na CPI, entre um soluço e outro, ele temia pela vida. “Estou com medo de represálias. Eles podem mandar nos matar”, disse.

Tudo foi corroborado por padre Edilson Duarte, que inclusive chegou a assumir a homossexualidade em rede nacional. Ele teria sido abusado por um vizinho ainda com 12 anos de idade, um trauma que guardou para si até a entrevista com Cabrini.

“E com 12 anos, descobri minha vocação para ser padre, para espalhar a palavra de Deus”, colocou Duarte. Segundo ele, havia um complô, um esquema entre os próprios padres em que os coroinhas eram usados de forma sistemática – na prática, era feito um "rodízio" deles.

O arcebispo de Penedo, Dom Valério Brêda, também teria conhecimento de todos os fatos e encobriria tudo.

“Perdoem-me. Eu pequei. Mas expus a Deus de imediato”, pontuou monsenhor Luiz Marques na CPI da Pedofilia, seu grande confessionário.

Ademais, a Justiça terrena cumpriu seu papel, no que tange à prática do crime de pedofilia. “Sei que há fanáticos [religiosos] que torcem pelos padres, mas acredito que o veredicto tenha atendido aos anseios da sociedade”, concluiu o juiz João Luiz Azevedo Lessa.

O importante a ser frisado é que esta foi a primeira vez que algo dessa natureza acontece no Brasil: religiosos indo a julgamento antes da Justiça de Deus ser plena.

"A gente sofreu abusos e mostrou a cara. A Justiça, enfim, foi feita. E a sensação é de alívio. Isso só serve de motivação para que mais pessoas que também são vítimas façam denúncias desses falsos sacerdotes", declarou o ex-coroinha Anderson Farias. Os padres ainda podem recorrer da sentença.

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