Publicado em 23/6/2011 às 23:5:33 por Dr José Firmino
18 de junho de 2010. Data que marcou a vida de milhares de famílias que residiam e ainda residem nas cidades alagoanas e pernambucanas cortadas ou margeadas pelos Rios Mundaú e Paraíba. Em 18 de junho de 2011, em Alagoas a história poderia ser bem diferente, o dia poderia ser bem mais alegre, em que pese as profundas marcas de tristeza, de angustia e de dor, que aquele 18 de junho deixou em milhares de ribeirinhos pobres e ricos, residentes nas 15 cidades alagoanas, atingidas pelas enchentes devastadoras ocorridas naquele fatídico dia.
Ao contrario do desejado, o dia foi de lamentações e de incerteza em relação ao futuro de cada um daqueles desabrigados que estão sem teto, sem esperança e sem vida. No relato feito pela jornalista Can Almeida, de Maceió, após visitar os acampamentos de quatro das cidades atingidas pela cheia, ela retrata de forma clara a situação de abandono em que aquela gente se encontra.
Aos olhos da sensível jornalista, as crianças geradas e nascidas em meio àquela desgraça, “...estão perdendo sua infância, inventando brincadeiras com o que têm a mão...”. E, resumindo o que viu, Can desabafa dizendo “ser impossível expressar em palavras o sofrimento de homens, mulheres, anciãos e crianças, que estão morando em condições subumanas”, sentenciando que “A expressão de dor, de sofrimento e de abandono que se extrai do rosto de cada criança, de cada adulto, de cada idoso é a mesma e igualmente impossível de comparar, mas talvez se assemelhe àquelas expressões de terror que os fotógrafos de guerra conseguem captar, nos campos de batalha”.
Testemunha-se, pois, após 365 dias da trágica cheia que deixou um saldo de 27 mortes, 29 desaparecidos e milhares de desabrigados, que a solidariedade prestada pelas boas almas de Alagoas e de todo o Brasil e os milhões de reais liberados pelo Governo Federal, esbarraram nas mãos da burocracia do Estado e donativos foram desviados, as necessidades básicas das pessoas agravadas e as casas prometidas estão longe de serem edificadas.
O governo alagoano anuncia que tem pressa, mas não dá mostra nenhuma de que está apressado para, concretamente, fazer alguma coisa que seja capaz de minimizar o sofrimento desses filhos da desgraça que vivem, depois das enchentes do ano passado, em tendas improvisadas como se estivessem em campo de concentração, jogados ao abandono, recebendo apenas comida suficiente para não morrerem.
Descaso, roubos, estupros, violência, trafico e consumo de drogas é o cotidiano de alguns acampamentos onde estão alojadas as vitimas das enchentes devastadoras de 18 de junho de 2010. Há de se dizer, porem, que esses acampamentos são retratos fieis do descaso das autoridades, responsáveis pela solução definitiva dos problemas causados pela natureza, revoltada com as ações criminosas do homem, em relação a si.
O governo anuncia com empáfia, na tentativa de se eximir da culpa pelo prolongamento da miséria e do sofrimento daquelas pessoas, que 5451 quilômetros de estradas já foram recuperados. Muito bom, mas esquece o Governo de que antes, ou quando nada, ao mesmo tempo em que as estradas fossem recuperadas era preciso se ter recuperado a moradia dos desabrigados, as suas dignidades, as suas esperanças e a vontade de viver de cada um deles.
As autoridades responsáveis pelo prolongamento e o agravamento do sofrimento desses milhares de desabrigados, deveriam ser responsabilizadas penal e civilmente pelo seu descaso, sua lerdeza, sua omissão e eventual conivência com o desvio criminoso de donativos destinados a essas pessoas que antes das enchentes eram pobres, porem descentes e cheias de vida e que agora, depois de um ano, nada mais são alem de pobres homens e mulheres desiludidos, a espera da ajuda de Deus e dos homens de boa vontade.
A notícia que se tem dá conta de que 17512 casas serão construídas para essa sofrida gente pelo programa “minha casa minha vida”. Entretanto, os seus futuros ocupantes terão que pagar R$ 50,00 reais por mês, pela casa recebida. Alguém insensível pode dizer que é um valor muito pequeno, mas na verdade esse valor é pequeno para quem ganha alguma coisa, não para quem está desabrigado, desempregado, vivendo na mais absoluta das misérias. Desta forma, é preciso que o governo reveja está situação, porque essas pessoas, ao não terem condições de pagar tal importância, podem se transformar de pobres com o nome limpo na praça, em miseráveis endividados e como o nome sujo no SPC.
Como se pode ver a situação é seria, é grave, é desesperadora. Portanto, não é hora de bonitos, entusiasmados e vazios discursos políticos. É hora de arregaçar as mangas e provar que realmente o Governo tem pressa, pressa para tirar esses desabrigados da miséria, devolver-lhes a dignidade e a esperança de terem um futuro melhor. É hora de reconstruir a Segurança Pública, a Saúde e a Educação, já que essas pastas devem muito ao povo alagoano, povo que, aliás, no ritmo letárgico do governo que ajudou a eleger, espera de braços cruzados que algo de bom lhe aconteça.
Resta, portanto, agora, rogar para que em 18 de junho de 2012 não mais se esteja remoendo a dor e a desgraça que se abateram sobre os moradores dessas 15 cidades alagoanas, atingidas pelas enchentes de junho do ano passado. Espera-se que no próximo aniversário dessa tragédia, possa-se comemorar a superação do sacrifício vivido por esses desabrigados durante todo esse período, comemorar a nova vida que eles estejam levando, a retomada da dignidade de cada um deles e o retorno triunfal da esperança desses heróicos e honrados alagoanos e alagoanas.
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