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Morros do Rio e favelas

2/12/2010 às 11:4:19
Publicado por Ednaldo Marques



Para que a situação em alguns morros do Rio de Janeiro, que já estão sob controle da segurança pública, tenha o equilíbrio desejado é preciso uma ação integrada e contínua do poder público. Serviços de saneamento básico – esgotamento sanitário, drenagem de águas pluviais e coleta de lixo, além de urbanização, educação e profissionalização, geração de empregos e renda, saúde... são essenciais para garantir a paz nessas comunidades.

O que assistimos nos últimos dias é reflexo ainda do período escravagista ocorrido no Brasil no final do século XIX. Outros fatores responsáveis foram o déficit habitacional do país, a má distribuição de renda e a falta de políticas públicas que mantenham o homem no campo.

A consequência é a assustadora transferência do homem do campo, que sem a posse da terra e sem trabalho, desloca-se para as cidades na tentativa de garantir a sua sobrevivência. A crise social faz com que pessoas, sobretudo oriundas das áreas rurais, venham para a cidade à procura de oportunidades, de uma vida mais digna.

Os estudos sobre motivação humana demonstram que o que mais motiva o homem é a sua necessidade de sobrevivência. Quando isto está em jogo, o ser humano luta ou foge.

Essas regiões urbanas apresentam baixa qualidade de vida e moradores com um poder aquisitivo muito limitado – menos de um salário mínimo, onde as edificações são feitas sem a técnica adequada e sem levar em conta aspectos urbanísticos.

Geralmente são nos morros e nas grotas os locais escolhidos pelas pessoas para construir favelas ou comunidades precárias. São áreas de topografia acidentada, onde as construções ocorrem em terrenos invadidos e sem regularização fundiária.

Por ser uma região em geral caracterizada por uma ocupação desordenada do solo, faz-se necessária a intervenção do poder público e, de preferência, logo no início, quando a favela começa a se instalar. Esta foi a grande falha administrativa que provocou a guerrilha urbana nos morros do Rio – a omissão da autoridade pública.

O grande problema é que as favelas se instalam sem a orientação ou fiscalização. Habitações, às vezes, sub-humanas, são construídas sem as instalações de água e energia, esgoto, coleta de lixo, drenagem de águas pluviais e sem mínimos critérios urbanísticos.

As soluções para os problemas de favelas no Brasil passam necessariamente pela urbanização das já existentes e pela implantação de programas de engenharia pública, associados a projetos específicos de melhoria da qualidade de vida.

EDINALDO MARQUES
Engenheiro Civil e Professor da UFAL
 

Perigos nas estradas

23/11/2010 às 10:21:20
Publicado por Ednaldo Marques



 

Buracos de diversos tamanhos aparecem com frequência nas estradas federais, estaduais e municipais de todo o país. Os trabalhos de manutenção não têm a velocidade e a eficácia necessárias. Falta um sistema de gerenciamento, que permita prever e executar as obras de conservação, a fim de garantir a funcionalidade das rodovias – conforto, segurança e economia de operação.

O número de acidentes, que já é elevado, tende a aumentar com a proximidade das festas de final de ano e das férias de janeiro. Os indicadores de mortes em rodovias no Brasil são dez vezes maiores do que os registrados nos Estados Unidos.

Ano a ano milhares de pessoas são vítimas de problemas nas estradas. São pneus cortados em face de irregularidades nas superfícies dos pavimentos, suspensões danificadas, excessivo número de quebra-molas – alguns com sinalização deficiente, fiscalização da polícia rodoviária insuficiente devido a falta de pessoal, ausência de sinalização específica para caminhões – os dispositivos existentes são para os veículos leves. Além disso, declives e aclives acentuados, traçados antigos mal planejados e cheios de curvas fechadas.

A maioria dos acidentes tem falha humana, mas há uma parcela de contribuição das deficiências estruturais e de sinalização existentes nas rodovias. Os gestores responsáveis nunca são citados e nem punidos. São quase sempre os motoristas acusados de imprudência ou excessiva carga de trabalho no volante.

A causa de falhas estruturais nas estradas não é a falta de recursos orçamentários e financeiros, mas a ineficácia. Uma obra rodoviária é projetada e construída para um período de vida útil. A depender do crescimento do volume de tráfego precisa passar por melhorias, duplicações e serviços constantes de manutenção. Após inauguração e entregue ao tráfego, necessita de cuidados permanentes, avaliações periódicas, de medidas preventivas e corretivas, que devem ser preferencialmente realizadas no verão.

Infelizmente, o poder público não faz o que precisa ser feito. Executa obras que são entregues à população, mas se esquece de efetuar uma manutenção correta. Despreza um elevado patrimônio, que fica enterrado nessas obras e entregue ao tempo. Bilhões de reais que deveriam merecer a atenção dos governos. Isso sem contar com as vítimas fatais e os que ficam meses em recuperação nos hospitais públicos.

Precisamos mudar o quadro atual. É inadmissível, que em pleno século XXI, isso se repita de governo a governo, mesmo dispondo a engenharia de soluções técnicas eficientes e econômicas para serem aplicadas.

A CIDE – Contribuição de Intervenção sobre o Domínio Econômico, criada no final do segundo governo FHC, para tentar substituir o extinto Fundo Rodoviário Nacional (1986), apesar de já ter arrecadado cerca de 70 bilhões de reais, apenas um terço foi até hoje aplicado.

Se o problema fosse falta de recursos financeiros, até poderíamos aceitar. Só que não é o caso. Recursos existem. O que não existe é a visão clara da necessidade de priorizar o problema.

Vamos continuar sendo o país dos buracos, da falta de eficácia e do desperdício de dinheiro?

EDINALDO MARQUES
Engenheiro Civil e Professor da UFAL

www.twitter.com/edinaldomarques

Percepção e realidade

22/11/2010 às 8:54:55
Publicado por Ednaldo Marques


Tudo, absolutamente tudo, depende da visão que temos do mundo, das pessoas, dos problemas em geral e da vida. Nossa visão também está diretamente ligada aos nossos valores. Tentar mudar de opinião sem mudar a visão que temos sobre algo é praticamente impossível. A verdadeira e completa mudança ocorre quando mudamos a nossa visão, quando mudamos o que percebemos ou pensamos sobre alguma coisa. O grande perigo de visões distorcidas são as consequências das decisões tomadas, apoiadas em nosso “achismo”.

A visão está ligada a nossa educação, cultura, ambiente familiar e social, experiências de vida absorvidas ao longo de nossa existência.

O exemplo abaixo pode explicar melhor o que acabamos de dizer. “Uma jovem estava a espera de seu vôo, na sala de embarque de um grande aeroporto. Como deveria esperar várias horas, resolveu comprar um livro para passar o tempo. Comprou, também, um pacote de biscoitos. Sentou-se numa poltrona, na sala vip do aeroporto, para poder descansar e ler em paz. Ao lado da poltrona onde estava o saco de biscoitos sentou-se um homem, que abriu uma revista e começou a ler. Quando ela pegou no primeiro biscoito, o homem também tirou um. Sentiu-se indignada, mas não disse nada. Apenas pensou: “Que atrevido! Se eu estivesse com disposição dava-lhe um soco no olho, para que ele nunca mais esquecesse desse atrevimento!”. A cada biscoito que ela pegava o homem também tirava um. Aquilo a foi deixando cada vez mais indignada, mas não conseguia reagir. Quando restava apenas um biscoito, ela pensou: “ah... o que vai esse abusador fazer agora?” Então, o homem dividiu o último biscoito deixando a metade para ela. Ah! Aquilo era demais. Ela estava sobrando de raiva! Então, pegou no livro e no restante das suas coisas e dirigiu-se para a porta de embarque. Quando se sentou confortavelmente numa poltrona, já no interior do avião, olhou para dentro da bolsa para tirar os óculos. Para sua grande surpresa viu intacto o pacote de biscoitos que havia comprado! Sentiu imensa vergonha! Percebeu que quem estava errada era ela... Tinha esquecido que havia guardado os biscoitos em sua bolsa. O homem tinha dividido os biscoitos dele com ela, sem se sentir indignado, nervoso ou revoltado. Entretanto, ela tinha ficado muito transtornada, pensando estar a dividir os biscoitos dela com ele. E já não havia ocasião para se explicar... nem pedir desculpas”.

A conclusão tirada é a seguinte: quando se muda a visão do problema, nossa decisão passa a ser diferente. Daí a importância de questionar o que pensamos ser verdade antes de tomar a decisão final.

EDINALDO MARQUES

Engenheiro Civil e Professor da UFAL


A cultura dentro do serviço público

18/11/2010 às 9:55:43
Publicado por Ednaldo Marques



 

Para mudar resultados dentro do serviço público – melhorar a educação, saúde, segurança pública, assistência social e demais serviços, é preciso substituir paradigmas que estão nas cabeças dos dirigentes, trocar interesses particulares por coletivos, aumentar os níveis de comprometimento, mudar hábitos, preparar os chefes e servidores em geral para que aprendam a trabalhar com sinergia positiva. Em síntese, significa mudar a cultura dentro das organizações.

Não consta dos valores políticos hoje existentes a importância que tem a cultura organizacional, para que as ações públicas aconteçam em maior velocidade, mais eficiência e com menos desperdício de recursos públicos. Também não constam, com raríssimas exceções, a valorização da meritocracia, presença de sistemas de avaliação de servidores e a existência de planos de cargos e salários, que contemplem aqueles funcionários mais talentosos e dedicados. Em geral, há um nivelamento salarial entre os ocupantes de funções públicas correlatas.

Proliferam culturas de desconfiança, desvios de caráter e fofocas que não contribuem para atender às necessidades da população. Há um excessivo número de funções comissionadas, que muitas vezes são preenchidas para atender a interesses políticos, sem levar em conta, simultaneamente, a competência técnica e a capacidade de gestão da pessoa escolhida.

Os planejamentos elaborados se restringem ao período de um determinado governo. Não há um planejamento estratégico, de médio e longo prazos, que seja executado por governos sucessivos, independentemente da sigla partidária ou ideologia.

A população em geral não sabe o porquê das intermináveis filas para atendimento nos postos de saúde, das deficiências nas áreas de transportes, dos baixos indicadores da educação básica – IDEB, das falhas na segurança pública, do crescente número de crianças e adolescentes que se drogam... Tudo isso é consequência de uma cultura negativa no serviço público, que impede o Brasil, estados e municípios de se desenvolverem numa velocidade compatível com a realidade.

EDINALDO MARQUES
Professor, Consultor e Palestrante

www.twitter.com/edinaldomarques
Tags: Valores, planejamento, eficiência

A metáfora do freio de mão no serviço público

1/11/2010 às 20:53:14
Publicado por Ednaldo Marques


 

Quem já procurou o serviço público no Brasil para resolver alguma coisa sabe das dificuldades enfrentadas para chegar à solução do problema. Em geral, há uma lentidão nas respostas ou soluções e o atendimento deixa a desejar. Nota-se que o nível de engajamento do servidor público ainda está longe do entusiasmo criativo. Pode, em alguns casos, até haver satisfação em cooperar, ou demonstração de algum comprometimento. Porém, entusiasmo é mais difícil, para não dizer quase impossível de ser identificado. Por que isso acontece?

As pessoas que dirigem o país, estados e municípios chegam aos postos de comando por eleição popular – através do voto. A partir daí, as indicações para ocupação dos diversos cargos se dá por amizade ou indicação política. Parte-se da ideia de que qualquer um, independentemente de ter ou não curso superior, está apto a exercer determinada função. Mesmo que as pessoas escolhidas possuam algum curso de graduação ou pós-graduação, seria importante preparar os dirigentes para a habilidade de liderar e administrar com eficácia pessoas e processos.

Na prática isso não acontece. A pessoa indicada inicia seu trabalho e vai tomando decisões, calcadas em paradigmas que não se aplicam mais na era do trabalhador do conhecimento. O processo de gestão na maioria dos órgãos públicos ainda tem por base paradigmas da era industrial. Isto não dá mais certo nos dias atuais. Criam-se barreiras – não percebidas, que dificultam a dedicação do servidor público.

Quando os servidores são tratados como pessoas completas – com necessidades físicas, mentais, emocionais e espirituais simultâneas, passam a oferecer, voluntariamente, seus maiores esforços e energia. Ao contrário, quando as pessoas são tratadas como coisas – por exemplo, para motivar basta pagar o salário em dia, deixam de se comprometer, ou então, até se comprometem, mas não com a criatividade, entusiasmo e potencial que possuem.

A diferença entre as diversas formas de envolvimento das pessoas dentro do serviço público depende, fundamentalmente, da maneira como as chefias se comportem. Se, além de chefiar, os comandantes também liderarem, criarão as condições necessárias, para que os servidores comecem a agir com mais entusiasmo e criatividade.

Outro fator determinante é o nível de confiança entre servidores e chefias. São três os níveis de confiança. O primeiro é a confiança pessoal ou confiabilidade, que é medida pela integridade mais a competência. Em segundo, vem a confiança interpessoal determinada pelo comportamento da chefia em relação a equipe. Terceiro, a confiança na organização, que pode levar ao alinhamento nos propósitos.

Enquanto houver improvisação e a escolha para ocupação de cargos estratégicos não levar em conta a capacidade de liderar e administrar, a metáfora aplicada ao serviço público é a de um veículo em movimento com o freio de mão ativado – anda, mas não consegue desenvolver a velocidade ideal. Esta é uma realidade brasileira.

O apagão de liderança eficaz com uso de paradigmas corretos e voltados ao trabalhador do conhecimento é uma realidade atual que precisa ser mudada. Não há obediência ao princípio da meritocracia e as gestões ocorrem de modo improvisado. Mais recursos são gastos e o tempo de duração para atingir metas é maior.
 
EDINALDO MARQUES
Engº Civil, Pós-Graduado em Administração
Professor e Consultor


Edinaldo Marques é Engº Civil, com Mestrado em Administração e Consultor.

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