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Era domingo, dia de feira,
a cidade estava agitada. Véspera de São João, a meninada amanheceu em êxtase
e havia duas razões: a festa noturna, que teria a “guerra” de fogos de
artifícios, e a preliminar do jogo de futebol entre Paulo Jacinto e
Quebrangulo. Participar dos dois eventos era, sem dúvida, a glória para
qualquer garoto.
Ao meio-dia, seu José
Elias, meu pai, fazia a fogueira à porta de casa e me tinha como ajudante. De
dentro de casa saía um cheiro gostoso de cozido, com osso buco, legumes e
muito mais. Logo, água na boca. A Rádio PR Vitória tocava Luiz Gonzaga: “Olha pro céu meu amor/ Vê como
ele está lindo”... Havia animação e cumplicidade entre pai e filho nesse
momento. De repente, o disco muda e entra no ar Jackson do Pandeiro: “Esse
jogo não é um a um/ se o meu time perder tem zunzunzum”. Era o fundo musical
tradicional para anunciar as partidas de futebol. Maravilha. A música seguia
em frente e nós na armação da fogueira. Ela tinha de ser grande para durar a
madrugada inteira.
De repente, o locutor, seu
José Chaves, entra no ar e anuncia: “Hoje à tarde, esportiva com o clássico
entre a seleção de Paulo Jacinto contra Quebrangulo”. Em seguida a escalação
do time da casa: Gogo Liso, Everaldo, Jorge Holanda, Vavá e Bastinho. Zé
Gomes, Batetê e Zé Chaves. Seu Ni, Geraldo e Edmilson. Time bom, com meio de
campo de categoria e ataque arrasador.
E o background (BG) de
Jackson do Pandeiro continuou. O locutor veio com a notícia seguinte. “E a
preliminar dessa partida será feita entre os times da rua do Bota Pó e o
Outro Lado da Ponte”.
Logo parei de ajudar o
velho para ouvir as escalações dos times. Ele percebeu minha ansiedade e
também ficou atento. Seu José Chaves anunciou o bom time do Bota Pó, em
seguida o Outro Lado... Saíram os dez nomes, até que ele encerrou com “e...
Marcelo”. Foi aí que vi o sorriso discreto do meu pai. Estávamos orgulhosos.
Eu não me cabia de tanto contentamento. A fogueira estava pronta, e meu nome
saíra na rádio.
Dona Nila, minha mãe,
chamou-nos para o almoço. Comida na mesa, o cheiro bom tomava conta dos
quatro cantos. Logo após a oração do velho, comi feito um bicho, apressado.
Louco para correr pro campo. O jogo começaria às 14 horas. Terminei.
Levanto-me, e o velho pergunta:
– Você
vai pra onde?
– Eu
vou para o jogo.
E ele
joga o balde de água fria:
– Você
come um prato de pirão agora e diz que vai jogar, não pode não.
Dona
Nila, então, reforça:
– Vai
lhe fazer mal.
Saí
contrariado.
O jogo começou comigo no
banco. Ao lado da trave adversária, vejo meu pai. Não sei se de olho na
partida ou me vigiando. Veio o segundo tempo e entrei em campo à base da
pressão. Perdíamos por um a zero. Chegava o final do jogo, e 22 meninos
estavam dentro da mesma área. A couraça sobra para Nego Tião, que chuta
torto. Surpreendo-me com a bola espirrada vindo ao meu encontro. O goleiro se
agiganta. Fecho os olhos, dou uma bicuda e todos correm para me abraçar. Olho
em volta, atônito, e procuro ansiosamente alguém que antes estava ao lado da
trave, mas o lugar já estava vazio.
Foi assim: frustração e
satisfação no meu primeiro gol.
Marcelo Firmino é jornalista paulo-jacintense e secretário de
Comunicação de Maceió.
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